Últimos segundos - Editado

13:51 @Tiabetok 11 Comentários

     
       
          É incontável a quantidade de vezes que nos perguntamos sobre isso sem dar a devida atenção. Lembro que era uma das perguntas recorrentes dos cadernos de perguntas que, nossa, como perdíamos horas respondendo aquilo no tempo do colégio. De uns tempos para cá confesso ter pensado no assunto com mais seriedade. Talvez, o câncer do meu marido me tenha posto em alerta para o fatídico último dia, que nunca sabemos quando será. Independente se fosse o dele ou o meu. São as ultimas horas, últimos segundo de se ter algo bom para todo o resto ter valido a pena.
         Não, ele não morreu, vai muito bem, obrigada, mas a sensação de morbidez nos acompanhou ainda um tempo - mesmo que curto - e fantasiamos alguns momentos únicos para quando essa hora, enfim, chegar. Se fosse uma escolha minha desejaria estar só. Veja bem, não é egoísmo, mas é difícil escolher uma única pessoa que seja importante para dedicar meus últimos instantes com ela; e ainda é injusto, fazê-la fingir que está tudo bem e agir naturalmente como se nada tivesse acontecido e que tudo vai ser lindo de novo ao amanhecer. Prefiro escolher aquele disco empoeirado, o caixote cheio de fotos e diários e a poltrona mais confortável que já existiu em todo o mundo. 
           O sentimento seria único: não iria de forma alguma lamentar o fim dessa jornada e mau dizer os céus pela injustiça cometida. Iria chorar de rir daquelas fotos medonhas que minha mãe sempre fez questão de tirar de quando éramos crianças. Um aperto no coração de lembrar do primeiro namoradinho da escola, dos times de basquete, as medalhas ganhas com todo esforço. Os familiares que se foram antes, os que estarão chegando. Reler todas as cartas de amor e o quanto foi importante guardar aquele papel de bombom. Ler no diário que aquele beijo era só mais um de uma "curtida de fim de semana" mas que resultou na família que construí. Desejei passar todos os meus dias até o ultimo momento ao lado dele; mas não suportaria a ideia de vê-lo em desespero ao me ver partir. 
          Claro que isso é uma proposta fantasiosa, afinal todos temos um medo irracional da morte, principalmente de morrermos a sós; e pela ordem das coisas quem deve ir primeiro é ele, não que isso seja regra definitiva pois o universo conspira com doenças inexplicáveis, ataques fulminantes, acidentes e violência gratuita. Nem decidir como morrer em paz podemos mais! Então, meus últimos segundos são todos os dias, no momento em que acordo com vida e preparo aquele super café da manhã digno de propaganda de margarina, e antes de dormir dividindo minhas particularidades, metas não cumpridas e historinhas do passado, fazendo o meu presente, o meu agora ser tão importante quanto meu último dia. Fazendo valer a vida que tenho antes que ela se esgote, pois nas condições atuais, talvez nem o segundo de lamentação possa ser possível.

Post para Blogagem Coletiva do Blogs Up


OBS: Gente, pelamodi!!! É só um texto ok?!, No fim da postagem coloquei "para a blogagem coletiva", Últimos segundos é um tema a qual vários blogueiros precisaram desenvolver; meu marido não está doente, e nem sou casada (moro com meu namorado a um tempo); é apenas uma narrativa em primeira pessoa. Tanto que os marcadores são "blog, coletivo e texto" e não "cotidiano, eu ou pessoal", então por favor, não surtem; vieram perguntar (pessoalmente) se ele estava bem porque postei que ele estava doente e para morrer, isso não se faz, viu! Um pouquinho mais de atenção da próxima vez para que esse tipo de caso não volte a acontecer, por favor. Agradeço a preocupação de todos, mesmo assim. Atentem-se aos marcadores.
Grata pela atenção

11 comentários:

  1. Que lindo o seu texto, também nunca tinha parado para pensar profundamente sobre a morte, porém o único medo que tenho em relação a isso é partir sem viver tudo o que eu tinha pra viver. Do resto estou segura que vou partir dessa pra melhor. Enfim, parabéns pelo blog, muito sucesso pra você! Beijos!
    http://www.doseujeitoblog.blogspot.com.br/

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    1. é a única certeza que temos, não é?!

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  2. Lindo o que você escreveu.
    Já que nunca sabemos quando será o último segundo, mesmo sabendo que viemos aqui de passagem, pelo menos eu tento fazer minha vida única e excepcional. Tudo passa tão rápido.

    | A Bela, não a Fera |
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    1. verdade, não nos damos conta da velocidade em que as coisas passam....

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  3. Tudo o que escreveu é tão real!! Diante da morte do meu pai, no último natal, às vezes me pego pensando, em momentos super egoístas e dignos de nojo, que poderia ter tido outro pai que vivesse por mais tempo, e aí eu não estaria sofrendo desse jeito. E eu me odeio quando isso acontece, porque meu pai foi e sempre será a pessoa mais maravilhosa, honesta e carinhosa que já conheci na vida, e sou muito feliz por poder amá-lo. Às vezes, com a depressão, dá uma vontade de não existir, mas como você disse, o bom seria se ninguém sofresse com isso, né? Parte o coração pensar que alguém poderia se sentir como eu me sinto por minha causa.
    O texto está realmente maravilhoso (me desculpa pelo desabafo haha). Abraços ♥♥ 48janeiros

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    1. Oi Nati, obrigada por dividir isso conosco, cara, todos nós temos picos de egoísmo, pensaria da mesma forma.

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  4. Primeiro: Que texto maravilhoso é esse?
    Segundo: É um texto real?
    Terceiro: Sei exatamente como é passar por algo assim, eu não tenho marido mas, bem, tive um namorado que teve/tem câncer, leucemia. É complicado e delicado. O mais difícil é, como disse, ter que fingir que está tudo bem ou que tudo ficará bem no dia seguinte, não saber quanto tempo terá para olhar aquele alguém é assustador, se adaptar ao fato de que ela irá embora em breve é pior ainda. Masss... Enfim, fiquei encantada pelo texto, mesmo! *-*
    Um beijo
    Yasmim Gil
    http://cirandadeflores.blogspot.com.br

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  5. Muito bonito seu texto, moça! A vida passa tão rápido não é mesmo? As vezes a gente passa a maioria do tempo reclamando de bobagens enquanto o tempo vai passando e a gente vai perdendo as coisas boas da vida...

    bjss

    http://apenasumdiariovirtual.blogspot.com.br

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  6. Muito tocante o seu post, texto muito bem escrito, define com precisão o sentimento que eu e tantas outras pessoas conhecemos tão bem... Uma experiência individual, particular que, expressa em palavras, se torna universal. Concordo com cada sílaba. Bjos e tudo de bom pra ti <3

    http://sonhos-empoeirados.blogspot.com.br/

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